quinta-feira, 5 de agosto de 2010

ENTREVISTA AO DIÁRIO DO NORDESTE


DN - Com o que você sonha?

Moreira Campos - Sonho com uma estabilidade em que não haja nem humilhados nem ofendidos. Que haja um equilíbrio, que se saiba respeitar o semelhante, que se lhe dê dignidade. Escrevi um poema em que eu digo que no Natal eu dei um presente caro ao meu filho, mas veio uma fila de crianças pobres, diante de uma instituição qualquer, para receber presentes. E eu termino por dizer que o que me dói é que o presente deles não foi dado pelo próprio pai. Isto me dói. Daí eu ser solidário com os que estão à margem, dos que não participam do banquete da vida. Daí a minha tendência de punir pelos pobres, pelos que sofrem. Sem concessões baratas.

DN - Seria, no mínimo, uma espécie de remissão?
Moreira Campos - Exatamente. Através do que eu escrevo, eu estou de certo modo, redimido. Isto porque posso levar esta minha mensagem. Uma vez fiquei revoltado com uma declaração de um padre, que dizia que Deus criou o mundo com as desigualdades. Deus pode ter criado o mundo com todas as desigualdades: um baixo, um alto, um gordo, um magro, um branco, um preto etc; mas a pobreza é uma criação do homem. Nós, os homens, é que criamos essa diferença.

DN - Muitos artistas, principalmente os nordestinos, em busca de fama, de reconhecimento, vão ao eixo Rio e São Paulo. Como conseguiu uma projeção sem ter saído daqui?

Moreira Campos - Muito interessante isso, porque se você fizer uma análise de todos os que se projetaram na literatura do Ceará, ou de qualquer província do Brasil, essa projeção não se fez no seu Estado. José de Alencar, Clóvis Beviláqua, Farias Brito, Capistrano de Abreu, Rachel de Queiroz, todos buscaram o Rio de Janeiro. Este é o meio. É o chamamento. Mas, neste ponto, eu sempre fui muito preso. Mas há um fato curioso: os meus livros, raramente, são lançados no Ceará. A maioria deles foi lançado no Sul. É que eu compreendi que livro na província é pedra no poço. Aqui não há expansão. Eu senti isso muito jovem ainda. Eu senti que eu seria publicado pelo Sul ou ficaria restrito. Apesar de permanecer aqui eu fui publicado, sempre, por grandes editoras; dentre elas: a Nova Fronteira, a José Olympio, a Francisco Alves, a Civilização, a Cultrix. Daí o fato de eu ter conseguido uma certa projeção.

DN - Por que, na ficção, você se dedicou, exclusivamente, ao conto?

Moreira Campos - Eu já tentei o romance e o próprio teatro. O teatro, eu acho uma coisa admirável. O teatro talvez seja aquele que mais se aproxima de mim. Até pelo diálogo, eu sou muito econômico. Não é econômico, é que eu procuro dar muita força ao diálogo. Todavia jamais escrevi romance, novela ou teatro. Eu sou muito dinâmico. Essa minha voz lenta, demorada, é uma oposição ao que eu sou intimamente. Sou dinâmico e sintético. Nós não precisamos de muitas palavras para dizer o bastante. Daí, talvez, a minha inclinação para o conto, contar logo a história, não perder o clima. O que me prende muito é buscar a síntese, o detalhe revelador.

DN - E de onde vêm essas narrativas?

Moreira Campos - Vêm do que eu guardei na infância, do que eu vejo, do que eu observo, mas de acordo com as minhas preferências. Às vezes, amigos me contam um fato e me pedem para transformá-lo em conto. Mas, quase sempre, não tem os ingredientes necessários para o que eu quero. E eu não sinto aquilo como um conto. Às vezes, de passagem pela rua, eu vejo um fato, e aquilo pode ser um conto. Uma ocasião, eu conversando com um casal, um casal desconhecido, esperando um elevador, com duas crianças ao lado, uma muito loura e a outra bem morena. Eles, na conversa, bem libertos; aí eu disse que era muito interessante um tão moreno e outro tão louro. Então, o marido fechou a cara. E quando ele fechou a cara, ele me entregou um conto. Pode nem ser o que eu estava pensando, o que você está pensando. Ele pode ter fechado a cara por qualquer outro motivo. Mas o importante é que ele me entregou um conto dentro do que eu quero, do que eu desejo. Numa outra ocasião, eu parei num sinal e vi numa pracinha, sentados, dois irmãos: uma moça e um rapaz, gêmeos. Mas eu não sabia distinguir qual o homem e qual a mulher. Tão parecidos eram. Então, escrevi um conto de ordem sexual erótico. Agora, o mais erótico, de maior sensualidade, você publicou, recentemente, no DN Cultura: A gota delirante. Talvez seja o meu conto mais erótico.

DN - O erotismo em suas múltiplas manifestações...

Moreira Campos - É uma sedução minha. O sexo é a base da vida. Está em tudo. O sexo impulsiona, cria, é uma sedução. Agora, bem tratado. O amor, em mim, nunca é uma conquista. É sempre uma dor. O amor é mais dor do que conquista. Nós mais imaginamos do que realizamos. E isto é, essencialmente, uma fonte para mim.

DN - Você vê as novelas na televisão? O ministro da Justiça, Oscar Dias Corrêa, a ela se referindo, declarou, recentemente, à revista “Veja”, que elas necessitam de uma censura. Como essa censura não pode vir por via constitucional, ela seria imposta pela própria sociedade. Que acha disso?

Moreira Campos - Tudo isso é muito complexo, muito difícil. A televisão é um meio muito penetrante, atinge, indiscriminadamente, a todas as idades. Talvez fosse possível fazer uma concessão. As novelas são de uma liberdade, não sei, talvez condenável. O livro é uma obra mais fechada; não está ao alcance de todos. É verdade que na televisão chegamos a um liberalismo muito grande, o sexo explícito está quase sendo realizado. Mas eu, a princípio, não admito qualquer restrição à criação. Um dos elementos básicos para a criação é a liberdade. Sem ela, não se faz nada. Uma liberdade em que você não respeite sequer as suas próprias reservas, aquilo que você tem que confessar, embora possa doer. Mesmo assim, a novela da televisão surpreende, Veja, em O Salvador da Pátria, a liberdade com que uma filha diz para a mãe: “não, minha mãe, vá com ele, relaxe, goze”. Mas isso pode ser extravagante para a minha experiência, pode não ser para a de hoje, para a de amanhã. Tudo isso me surpreende. Nós tivemos muita falsidade no passado. Nós fomos muito falsos, guardando certos e determinados comportamentos, agindo escondidos. Veja que coisa admirável o palavrão. Com o passar dos tempos, as palavras perdem o impacto que tinham no passado, elas terminam por se incorporar a uma linguagem que se faz comum no dia-a-dia. E tudo é assim. É a evolução.

DN - O que é ter 75 anos?

Moreira Campos - Ter 75 anos é ter acumulado alguma experiência. Mas ela só terá significação se nós trouxermos na alma a infância. E o jovem. Nós temos que ser permanentemente jovens. O encontro com a literatura é um rejuvenescimento. Você tem que ser jovem, tem que acompanhar a evolução. Acho a vida admirável.
DN - Alguma decepção ou arrependimento?

Moreira Campos - Eu tenho muito do que me arrepender. Tenho guardado em mim muitas dores. Até mesmo no plano da família. Quando digo família, refiro-me a pai e mãe. Acho que, apesar de ter sido um filho bom, pelo próprio sofrimento que vivi, não me realizei na plenitude. Isso me dói.

DN - Houve alguma coisa a que muito desejasse e não conseguiu realizá-la?

Moreira Campos - Escrever um romance. E não me sinto com coragem de escrevê-lo. O conto me seduz de tal modo que eu deixo o romance de lado, apesar de contemplá-lo com inveja.


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