quinta-feira, 5 de agosto de 2010

MOREIRA CAMPOS VERSUS MOREIRA CAMPOS (Amanda Abreu Costa*)

 
 
(Diário do Nordeste, Fortaleza, 26/10/2008)

Moreira Campos é um escritor que explora de preferência o psicológico de suas personagens. A experiência das relações humanas é a grande força sobre que assenta a ficção do contista cearense, cujas histórias se valorizam pelos recursos estilísticos que usa para salientar essencialidades. A dor e a precariedade humana são as grandes constantes de sua obra, apresentando muita ironia contida nelas.
Desacredita na bondade e no heroísmo do homem, chegando ao pessimismo. Abate em muitos momentos o próprio leitor em face da desgraça física das pessoas, da baixeza moral, ou do absurdo da vida que retrata, outras vezes enternece e enche de pena com o destino sofrido e as impossibilidades das personagens.

O estilo de Moreira Campos atrai com perspicácia o leitor pela sugestão e o apuro dos detalhes segundo Braga Monteiro e Herman Lima que dizem ser as principais virtudes do escritor.

O escritor não gasta palavras e verifica-se que sua narrativa se depura e se concentra à medida que o escritor avança no tempo, apegando-se a este em um só momento narrativo, o que aproxima a estrutura do conto moderno e se distancia da novela. Não encontramos em sua narrativa derramamentos românticos, pelo contrário, temos uma narrativa sóbria devido ao ambiente e aos costumes de muitas personagens, geralmente rústicos, não deixando o autor descuidar da paisagem que, com freqüência é tipicamente nordestina tendo influência das circunstancias do meio físico e social.


Caminhos estéticos

A crueza do neo-naturalismo de Moreira Campos equilibra-se mediante os intuitos estéticos. O contista denuncia e sugere, buscando juntamente com os recursos da arte a verdade profunda do homem. È dessa forma que devemos vislumbrar o ponto de vista do autor, por exemplo, com relação ao sensualismo em seus contos, não se tem a intenção de despertar o prazer erótico do leitor e sim transmitir os sofrimentos e conflitos sensuais das personagens. Outro ponto importante, quanto à problemática social, Campos não toma partido, opta por encarar as injustiças como um dos fatores que infelicitam a vida do homem sobre a terra, ao qual, antes de pertencer como cidadão a uma sociedade, é um ser sujeito injunções sociais.

Vê-se, a propósito disso, a legitimidade artística da insinuação, que afasta a primazia de qualquer compromisso social, de que Vicente, personagem do conto ´ Soldados da Borracha´ em Vidas Marginais era tão herói quanto os ´heróis anônimos da guerra´, elogiados por certo orador, enquanto o próprio Vicente, em ruminações penetradas pelo contista, pensa estar muito abaixo dos heróis, que deviam ser como gigantes, e procura lembrar-se de um remédio que lhe ensinaram para impaludismo.


O caráter das personagens

Em seus contos Moreira Campos denota o caso raro ou imprevisto, que revela, quase sempre, extremos de vileza na ação das pessoas.

O autor trabalha com um estilo esmerado e simples, em que, ao lado da aludida marca sugestiva, se destacam a mestria dos diálogos e o gosto da repetição enfática à guisa de refrão, qualidades estas muito destacadas por vários analista da literatura do autor.

O autor tem um mérito artístico relevante pois este sabe exprimir com sensibilidade e de maneira desrealizante o real, mas eliminando, por uma fidelidade maior a ele, uma tensão mais definida entre o verossímil e o inverossímil, posição esta, igualmente legítima, por que optam outros escritores.

O ambíguo, nos escritos de Moreira Campos, embora não apareça de modo saliente, existe na expressão de silêncios, na contenção insinuante, suscitando-se esta ou aquela conclusão do leitor, que por isto diante das palavras de Campos tem oportunidade de completar o escrito com o não-escrito, que pode apresentar obedecendo ao comando do contista certa variação em suas possibilidades significativas. Em ´O Preso´ retratado no livro Portas Fechadas e transcrito na seleção dos 10 melhores contos de Moreira Campos é abordada em maravilhosa concepção, a fatalidade da vida que se engendra por serem as razões dos mais fracos impotentes diante da desrazão dos mais fortes, um conto que se constitui no ponto alto da crítica passageira, indireta e dissimulada, que o autor faz à sociedade em sua obra.


Motivo da tragédia

Em tal narrativa, a causa do suicídio do Inácio, personagem principal, é atribuída simbolicamente à mesma sociedade, que assim como não soubera amparar Inácio, deixando de qualifica-lo socialmente, não soube entender o marcante problema psicológico daquele homem não suportar a prisão: na sua ignorância e na sua condição humilde Inácio sentiu acaso de abalar um resto de dignidade que possuía, pois o não ser preso era preceito que pregava em casa, apontando aos familiares o exemplo de si próprio. No íntimo, porém, alguém o argüia desse modo: ´ o rosto da filha agora encarava-o de perto, em cima, sem compreender, o olhar espantado´.

O autor lança-nos em rosto esta triste verdade: os crimes se medem pela oposição social dos ofendidos. E Inácio tem a desventura de atingir precisamente o filho do juiz de direito. Se é coerente o ato dos policiais, diante de sua fraqueza humana, em só prenderem o velho por ser a vítima dele o filho de uma pessoa de posição social, não deixa de ser assaz injusto. A frase ´Me soltem que eu não tenho paciência de ser preso´ é o ingrediente de natureza imaginativa que se mistura, num efeito sinestésico, à droga do farmacêutico, ao caldo de cana da dona-de-casa ao matraquear das rodas do comboio, e significa a acusação impiedosa e inútil que a consciência dos cidadãos sentia. No entanto devemos atentar, antes de tudo, na impaciência do preso, insistentemente realçada pelo autor na citação daquela frase do detento, impaciência do preso que pela sua singularidade e veemência, se constitui num poderoso achado estético e num índice de profundeza da alma humana, situando-se, desse modo, o conto entre o épico e o trágico.

Por causa do absurdo da insolubilidade das situações em que as pessoas se envolvem na história, o qual tão bem soube o contista suscitar, O Preso cumpre o seu destino de verdadeira obra prima do gênero.
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*Do Curso de Letras da UECE.
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