sábado, 14 de janeiro de 2012

Moreira Campos por Ivo Barroso

(Ivo Barroso: Ervália, MG, 1929. Poeta, tradutor da grande poesia universal, crítico literário)

Em 1957 fui a Fortaleza assistir ao casamento de meu tio Pedro Pimentel com uma jovem de lá. Amante das letras, autor de excelentes sonetos e autodidata de redação escorreita, ele era inspetor do Lloyd Brasileiro e tinha ido à capital cearense fazer um relatório sobre as atividades portuárias da região, o que lhe consumiu vários meses de trabalho e lhe permitiu fazer algumas amizades entre os intelectuais da terra, além naturalmente de vir a conhecer a Stella com quem se casou.

Quando cheguei a Fortaleza, tio Pedro fez questão de me apresentar a um escritor de quem ficara amigo e com quem se comprazia em palestras literárias. Foi assim que cheguei à casa de Moreira Campos, num domingo, onde o encontrei em pleno lazer, depois do almoço. Moreira estava comodamente vestido como competia ao lugar e à ocasião, de roupa clara e sandálias de couro, e me convidou a ficar à vontade, a tirar o paletó e aproveitar a deliciosa brisa marinha que começava a soprar com educada suavidade. Bebemos uma água de coco e começamos a falar de livros. Moreira tinha acabado de editar um livro de contos, Portas fechadas, e logo me deu um exemplar autografado. Eu estava em dia com o que se publicava no Rio e São Paulo e lhe falei de livros com títulos semelhantes, algo mais antigos, de 1944, o Fronteira agreste, de Ivan Pedro Martins, e o Porteira fechada, de Ciro Martins. Moreira adiantou-me que seu livro era urbano e procurava fugir ao regionalismo então na moda, embora abdicasse igualmente das experimentações léxicas, que lhe pareciam um tanto artificiais.

Trouxe o livro comigo e comecei a lê-lo já na viagem de volta e quando cheguei ao Rio estava convicto de que havia conhecido um grande e autêntico escritor e que seu livro merecia divulgação aqui no Sul do país. Nessa época eu havia escrito uma resenha de crítica literária para o jornal comunista O Semanário sobre a poesia de Afonso Félix de Souza, que me valeu o convite para escrever outras. A seguinte (e creio, também última) foi sobre Portas fechadas, de Moreira Campos, que eu saudava como um grande escritor nordestino cuja escrita precisava romper as fronteiras nordestinas e chegar aos leitores do eixo Rio-São Paulo. Agora procurei nos meus caóticos guardados, mas não encontrei o recorte. Estou certo de que foi a primeira vez que o nome de Moreira Campos, que logo iria se tornar o grande Moreira Campos, apareceu na imprensa sulista. Como enviei a ele um exemplar do jornal, é possível que ainda reste essa inexpressiva lembrança em meio ao seu acervo que muito se enriqueceu com suas obras posteriores.
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