sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Moreira Campos por Sânzio de Azevedo



(Rafael Sânzio de Azevedo nasceu em Fortaleza, 1938, é professor, poeta, ficcionista, historiador literário e ensaísta)
 
Contista, romancista e amigo Nilto Maciel: Honrado com seu convite, venho dar meu depoimento sobre Moreira Campos, que considero o maior contista do Ceará em todos os tempos. Conheci Moreira Campos creio que antes de entrar na Academia Cearense de Letras e na UFC como professor do Curso de Letras, fatos ocorridos em 1973. Digo isso porque O puxador de terço, de 1969, eu o tenho com dedicatória manuscrita do autor, datada de 2 de junho de 1970. Mas posso seguramente dizer que me tornei amigo dele nesse 73 ou em 74. Frequentava eu a casa do grande poeta Cruz Filho (1884-1974), que me honrava com sua amizade, e um dia comentei com ele o fato de o conto "Uma História Antiga ou a Serpente", do citado livro, lembrar de certa forma o assassinato de José Nogueira, filho do prof. Joaquim Nogueira, morto pelo ex-amigo Sixto Bivar, em 28 de outubro de 1914. Cruz Filho disse isso ao Moreira e ele me procurou na UFC para saber como eu chegara a essa conclusão. Disse-lhe que conhecia a história, por ouvi-la de meus pais, etc. Ficamos amigos, e até perto de morrer ele me mostrava contos onde havia coisas reais. Lembro de um que falava de um criminoso que, mesmo cumprida a pena, insistiu em ficar na Cadeia. Eu reconheci o caso de Júlio Nunes de Melo, que matara a esposa em 1904, fato lembrado por Gustavo Barroso. Nos seus últimos tempos eu ia vez por outra à sua casa. Era amigo de sua filha Natércia (cujo falecimento prematuro ainda me dói na alma) e de D. Zezé, sua esposa, que sempre me chamava de amigo. Levei lá para eles verem dois retratos que ganhei de Cruz Filho: num, Cruz está num grupo do qual faz parte Sixto Bivar; e noutro, Gregoriano Cruz, seu irmão, está num grupo em que figura José Nogueira, que por sinal tinham algum parentesco com D. Zezé. Tenho, oferecido por ela, exemplar do livro Meu filho, de 1915. Penso que ainda teria outras coisas a dizer de Moreira, mas acrescento só que insisti para ele publicar em livro os belos sonetos que escrevia. Se eu lembrar mais alguma coisa, acrescentaria noutra ocasião.

Amigo Nilto Maciel, lembrei-me de uma coisa que considero interessante: todas as vezes em que o Moreira Campos ia falar para os alunos de Letras, na UFC, eu, na plateia, lhe mandava um bilhete pedindo-lhe que repetisse a história do concurso de contos. E contava ele que, dos textos inscritos, um era o melhor e falava de um jovem comunista morto pela polícia em um comício, tempos do Estado Novo. O caso, dizia ele, era verídico, e ocorrido na Capital cearense. Apenas o crime, que fora na Praça José de Alencar, era transferido, na narrativa, para a Praça do Ferreira, o que sabemos ser lícito em literatura. O personagem no conto era filho de pobre viúva de um pescador. Fluía o conto naturalmente e Moreira já via no autor um futuro colega de ofício. Mas, no desfecho, depois de descrever a pobreza da choupana, e contar a chegada do corpo, a mãe, ao ver o filho morto na luta pela causa que havia abraçado, exclamou, pateticamente: "Meu filho, você foi morto, mas do seu exemplo brotarão milhões!" Dizia Moreira mais ou menos isto: "Pronto, estragou o conto!" E acrescentava, com seu conhecimento da arte ficcional: "A viúva de um pescador, numa hora dessas, diria 'Meu filho, bem que eu dizia para não se meter com essa gente. Por que você não me ouviu?'" E completava: "O leitor que tirasse suas conclusões." Abraços, Sânzio de Azevedo.
/////

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...