quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

ZÉ MARIA MOREIRA DE SEU CAMPOS (Mayara de Araújo)

(Diário do Nordeste, 16.06.2011)



(O velho Moreira Campos, tímido, pacato e 'magricela' em sua biblioteca doméstica – FOTO: LÍBIA XIMENES 16/04/1982)

O "magricela", como fora carinhosamente apelidado por Rachel de Queiroz, já nascera assim, fino, anguloso. Muito quieto, "matutão"; com os amigos, risonho, amante de anedotas; fumante inveterado, interrompia as aulas na Universidade Federal do Ceará (UFC) para a hora do cigarro. Seu fusquinha inconfundível se destacava no estacionamento do campus.
E o que se sabe sobre Moreira Campos vai assim se construindo, em pedaços de histórias contadas por amigos, familiares e alunos. A partir de agora, contudo, não será mais necessário recorrer apenas às lembranças destes. Em "Moreira Campos, professor de histórias e de amizade", livro de Waldy Sombra que será lançado amanhã, a vida e a obra do escritor estão muito bem registradas.

Períodos

Sombra passeia com maestria pelas fases do contista, representadas por seus nomes. Na infância, foi Zé de Seu Campos, numa alusão ao Campos pai, português "forte e vermelho"; José Maria, na juventude, morando na cidade grande com a ajuda do primo Jáder de Carvalho; e, finalmente, Moreira Campos, assinatura que veio com a publicação de "Vidas Marginais" (1949), o primeiro de seus 11 livros. O nome fora adotado por sugestão de Joel Linhares, que lhe deu o exemplo de "Eça de Queirós, que também tinha por nome de batismo José Maria, e Machado de Assis, o de Joaquim Maria" – como Moreira mesmo explicou em crônica escrita nos anos 90.

Quando novo, acompanhava o pai comerciante em viagens à Capital, posto em calças de brim bem passadas e gravatinhas. Ali, enquanto o pai transpirava para fazê-lo ingressar no comércio, Zé queria saber de Greta Garbo, John Gilbert e outros heróis dos cinemas, com os quais se encantou tanto que, se pudesse, teria sido cineasta.

Waldy Sombra nos leva sem receios a sentar no chão da sala da família Campos, em Lavras da Mangabeira, para ouvir a matriarca D. Adélia, que descansava seus reumatismos na alva rede, entreter os meninos com suas histórias: imagens de vagões cruzando montes (café-com-pão, café-com-pão, bolacha não...), com chaminés cujas fumaças mais pareciam a cabeleira de um fantasma, e mulheres aparecendo no meio da noite para assombrar o maquinista.

Igualmente sem receios o autor desta biografia mete-se em nossas próprias lembranças. Quermesses, festas da padroeira, namoro no banco da praça, mergulho nas águas sangradas de um açude, senhores debatendo na calçada da farmácia... Levando-nos a uma identificação extravagante com a infância de Moreira. E tão logo se passam 50 páginas, assim sem notar.

E de que interessam tantos detalhes de um cotidiano tão comum? Simples: como disse o escritor Caio Porfírio Carneiro, autor do prefácio, a contemplação da vida de Moreira Campos é, ao mesmo tempo, a compreensão das entrelinhas de sua obra, já que "foi ele essencialmente um escritor dessa classe média de sofrimentos não revelados e que afloram do dia a dia vivido".

A Fortaleza dos anos 30 foi descoberta não sem sofrimentos, na juventude de seus 16 anos. Pai e mãe se iam mal de saúde e a tal donzela alva e eterna explorada em seus contos logo habitaria sua própria casa: o pai se foi aos 44 anos, a mãe aos 38. Àquela época já estava José Maria apaixonado por Fortaleza e logo depois por Zezé, a companheira incondicional, conquistada com um soneto guardado na gaveta da mesa de trabalho, em 1935. Casaram-se dois anos depois.

Encontros

Com a literatura, se casaria dali a alguns anos. Em 1944, uma excelente passagem do livro, narrada pelo próprio Moreira Campos, marca uma invejável relação de afeto que se construiu entre ele e Graciliano Ramos. José Maria, em viagem ao Rio de Janeiro, encheu-se de coragem para adentrar a Livraria José Olympio, reduto dos grandes nomes da literatura da época, onde Graciliano guardava cadeira e mesa cativas.

De Graciliano, Moreira não queria dinheiro para publicação ou coisa que o valha – o julgamento bastava. E o recebeu. Ali, em meio a José Lins do Rêgo, Rubem Braga e outros que chegavam, Graciliano comentou: "Veja como o estilo dele é dinâmico". E, em outro dia, tendo lido todo o livro, disse-lhe: "Li e gostei deveras". Graciliano e D. Eloísa, sua esposa, se encantaram com o cearense tímido, matuto, e contador de causos.

Para além da biografia, "Moreira Campos, professor de histórias e de amizade" resguarda os bastidores do afeto existente entre o contista e seus contemporâneos, registrado em diálogos e fragmentos de cartas. Rachel de Queiroz, Guimarães Rosa, Eduardo Campos, João Clímaco, Artur Eduardo Benevides.

E não apenas entre eles, mas ainda o laço familiar que uniria de modo tão estreito pai e filha. Natércia Campos, também escritora, seguiu-lhe os passos com semelhança pungente. Essa presença de ambos, Sombra relata numa lembrança poética de tão simples: "Sabe qual era a paixão da Natércia? Ninho de pássaros. Tinha vários na casa dela, era assim ó..." (e demonstrava a distância com a mão) "Engraçado. A filha apaixonada por pássaros e o pai, por corujas!".

Depois de tal leitura, repleta de imagens, episódios e datas, restou a mim desejar aos escritores ainda vivos saúde e talento para que um dia, também enveredem, a exemplo de Seu Waldy, pela experiência de guardar em livros a memória afetuosa de seus próprios contemporâneos. (Quem sabe eu mesma não o faça um dia).

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3 comentários:

  1. Oi,
    Estou interessado no livro. Como adquirí-lo?
    Um abraço.
    Esdras

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  2. Excelente postagem, NIlto!
    Abs
    Belvedere

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  3. Nilto, muito bom conhecer um pouquinho do mestre Moreira Campos.
    Louvável iniciativa!
    Aquele grande abraço dos irmãos de letras e sangue artístico!

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