sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Moreira Campos por Caio Porfírio Carneiro



(Caio Porfírio Carneiro)

Não me lembro quando se deu o meu primeiro encontro com o contista Moreira Campos. Lembro-me de que, ainda quando residia em Fortaleza, li o seu livro de estréia – Vidas Marginais – publicado lá no final dos anos quarenta. Alcançou grande sucesso de crítica. Moreira Campos, para nós, da geração mais jovem, surgia de repente como uma estrela brilhante, para nossa surpresa, admiração e quase perplexidade. Então nós tínhamos um contista daquela qualidade? Sabíamos que integrava o Grupo Clã, mas nos espantou a rapidez da admiração geral no Estado e no País. Tornou-se mestre de todos nós, que lidávamos, claudicantes, com o gênero curto de ficção. O seu segundo livro – Portas Fechadas – lançado alguns anos depois, confirmou e ampliou sua fama de grande contista brasileiro.

Numa das minhas idas a Fortaleza, encontrei-me com ele. Eu preparava o lançamento do meu livro de estréia – Trapiá – e ele lera já, em jornais e revistas, alguns dos contos que integrariam o livro. Fizemos logo uma boa amizade.

Após o lançamento de Trapiá, em 1961, ele veio a São Paulo tratar da publicação do seu terceiro livro – As Vozes do Morto – pela mesma coleção, intitulada “Alvorada”, da Editora Francisco Alves, que publicara o meu. Uma coleção de escritores de expressão. Começou com Carlos Lacerda, seguiram-se Clarice Lispector e Jorge Medauar. Paulo Dantas, que julgava as obras que apareciam, e o Lélio Castro, diretor da Editora, meteram-me no meio deles. Tive a sorte de iniciar nas letras como “gente grande”.

Moreira Campos avisou-me da sua chegada, por telegrama. Naquele tempo não tínhamos os meios globais de hoje. E eu fui, numa noite fria, esperá-lo no aeroporto de Congonhas. Levei-lhe um suéter salvadora, porque sabia que ele iria enfrentar um frio dos diabos. Arranjei-lhe um quarto num hotel modesto, familiar, no centro da cidade – Hotel São Sebastião – para não gastar muito dinheiro.

Ele acertou a publicação do livro, almoçou na minha casa, ficou conhecendo toda a minha família e passamos quatro dias para cima e para baixo visitando escritores e jornais.

Fui deixá-lo no aeroporto, numa tarde ensolarada. E a amizade transformou-se quase de irmãos.

Mas veio um desastre, que nos contrariou enormemente. A editora fez uma verdadeira sacanagem com o livro dele. Publicou-o em papel de péssima qualidade, uma capa azulada horrorosa, parecia mais um caderno escolar. O Paulo Dantas e o Lélio Castro, que dirigiam a Francisco Alves em São Paulo, com sede no Rio de Janeiro e impressões dos livros lá, ficaram furiosos. Fui à editora, vi o constrangimento do Paulo Dantas, que admirava muito o Moreira Campos e aprovara a publicação do livro. Moreira Campos, por sua vez, mandou um telegrama à editora, que era quase uma carta. Determinou que o livro não circulasse. Mas não houve jeito: o livro já estava em várias livrarias, e, apesar da roupagem péssima, vendendo bem. Erros de revisão de todos os tamanhos. Um deles tirava até o sentido da história de um dos contos. Pois a crítica não deu bola, viu apenas a qualidade dos textos e pôs o livro nas nuvens.

Passei a frequentar a sua casa nas minhas idas a Fortaleza e ganhei mais de uma compota de doce de jaca feito pela D. Zezé, sua esposa. Íamos, diariamente, à roda da Livraria Renascença, do Luís Maia, na Major Facundo, quase esquina com a Pedro Pereira, e lá também estavam sempre presentes o Juarez Barroso, o José Alcides Pinto, o Jáder de Carvalho, o Braga Montenegro, e professores da área do Direito. Nos lançamentos de livro, como nos meus, então ia a turma toda do Clã: Fran, Artur Eduardo Benevides, Eduardo Campos, João Jacques, Mozart Soriano Aderaldo, Otacílio Colares, etc. e etc.

Frequentávamos constantemente a casa do Braga Montenegro, na travessa Monsenhor Quinderé. Casa ótima, terreno grande muito arborizado, quase uma chácara. Eu, Juarez Barroso e Carlos Pontes assistimos, mais de uma vez, calados, discussões bravas entre Braga e Moreira sobre o conto. Moreira Campos, que evoluíra dos textos mais longos nos primeiros livros aos textos curtos e inteiriços nos últimos, não aceitava mais os chamados cortes, no andamento da criação, por força da mudança de tempo ou enfoque, pedidos pelo tema. Repetia sempre:
– O conto é uma peça una. Esse processo que se usa ainda de abrir espaços, como divisão de capítulos, é para novela e romance. O conto é um tiro só: vupt, e pronto. Tudo o mais vai no implícito.

Braga Montenegro discordava e as discussões entre os dois não paravam. Mestre Braga, ficcionista e nome de expressão da crítica nacional, naquela sua maneira gaguejante de falar, apresentava mil argumentos a seu favor e citava inúmeros contistas e estudiosos da arte literária. O José Maria, como também chamávamos carinhosamente o Moreira Campos, cortava com duas palavras :
– Uma ova.

Ajudei e consegui a publicação do seu livro Os Doze Parafusos, pela Editora Cultrix, de São Paulo. Não foi difícil, porque o escritor José Paulo Paes, que dirigia o departamento editorial da mesma, admirava-o muito.

Guardo do querido amigo várias cartas afetivas e camaradas. Nunca nos perdemos de vista, eu aqui em São Paulo, ele lá na nossa Fortaleza. Magérrimo, fumava o seu cigarrinho. Extremamente calmo, ar sempre alegre, de um humor notável. Adorava boas anedotas e ele as contava com muita graça. Um dia nos falou numa roda:
– Vocês sabem que o médico me proibiu de fumar? Estou com princípio de enfisema. Mas fumo escondido de mim mesmo. Dou uma tragada, o cigarro aceso na concha da mão, e ponho a mão para trás, escondendo de mim.

Pois assim como houve o desastre gráfico com o seu livro As Vozes do Morto, veio outro fato desagradável com o seu último livro, que não chegou a publicar. Pediu-me ele se eu poderia sondar em São Paulo a possibilidade de publicação. Falei com o seu querido amigo Ricardo Ramos.

Ricardo mandou buscar os originais e entregou-os à Siciliano. Eles se falavam muito por telefone e o Ricardo garantiu a publicação. Mas o Ricardo, desgraçadamente, veio a falecer em poucas semanas, de um câncer de fígado, que o fulminou quase como um infarte. E o Moreira Campos, bem piorado do enfisema, tomou um susto dos diabos. A editora passou a embromar e o livro não saía. Então, aborrecido, desiludido, telefonou-me de Fortaleza.
– Caio, me faça um favor. Tire o livro da editora. Não vou mais publicá-lo.

Insisti com ele, pedi à editora para se apressar, mas não houve jeito. Devolvi os originais e pedi particularmente à D. Zezé e à Natércia Campos, sua filha, que tomassem conta do livro. Juro que tive medo que ele o destruísse. Natércia me tranquilizou:
– Não tenha medo, Caio. O livro está comigo e um dia virá a público.

Quando morreu, aos oitenta e quatro anos, pensei em telegrafar à família. Mas o que eu iria dizer? Fiquei com o meu silêncio, com a saudade do amigo e com a amizade da família. Quando fui a Fortaleza, o meu abraço à D. Zezé e à Natércia consolaram-me muito mais.

Eu escreveria um livro sobre esse “monstro” do conto nacional, nascido nos idos de 1914, lá para os lados do Cariri, em Senador Pompeu, se ele, José Moreira Campos, de onde estiver, me der uma forcinha...

Quem sabe um dia...

/////

2 comentários:

  1. Excelente depoimento de quem conviveu de perto com o contista. Lamentável o fato de um livro, de um escritor de tanto talento, não ser publicado, porque o amigo que fizera o acerto morreu inesperadamente.
    Percebe-se que o valor lierário da obra não foi suficiente para a editora.
    Lourdinha Leite Barbosa

    ResponderExcluir
  2. Excelente comentário nobre Caio,lamento não ter conhecido Moreira Campos e sua filha também genial na arte da ficção.

    Inocêncio de Melo Filho

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...