quarta-feira, 18 de abril de 2012

Quatro lições do mestre Moreira Campos (Adriano Espínola)



(Adriano Espínola)

(Fala proferida no dia 31/8/1994, no Auditório José Albano, Centro de Humanidades da UFC, durante mesa-redonda em homenagem ao escritor Moreira Campos.)

Gostaria de agradecer ao diretor do Centro, Prof. Renê Barreira, grande administrador e homem sensível às Letras, pelo convite para participar deste evento; à Profa. Maria Elias, vice-diretora, pelo encontro que mantive com seus alunos de Comunicação Social, e à Profa. Neusa de Barros, que ora dirige com muita criatividade os Encontros Literários, cuja coordenação inicial, como todos sabem, foi exatamente do nosso Moreira Campos.

Pois bem. A essas pessoas devo a alegria de estar de novo na Casa, ao lado de colegas, amigos e ex-alunos. Devo confessar, entretanto, que essa alegria se encontra mesclada por certa tristeza, pois a homenagem ao autor de Os doze parafusos se reveste, de modo especial para mim, de uma grande saudade; saudade do meu mais próximo e completo mestre literário, a quem, desde rapazola, no entusiasmo dos primeiros escritos, corria a sua casa para, ávido, escutar-lhe a opinião, conselhos e estímulos a respeito de dois ou três poemas feitos dias antes e que ele paciente e resignadamente lia. Se por vezes os elogiava, não deixava de sugerir cortes e mudanças; saudade do amigo que nunca me faltou, nas várias ocasiões difíceis; saudade, enfim, simplesmente do “Tio Zé Maria”, do parente próximo que sempre soube preencher de afetividade, graça (era um estupendo contador de anedotas) e inteligência o ambiente familiar, ao lado da sua mui amada companheira, a minha, a nossa querida Tia Zezé.

Justamente daí, dos numerosos encontros que tivemos, é que gostaria de compartilhar com vocês três ou quatro momentos reveladores, creio eu, da sua arte e de toda uma concepção de literatura que me ficaram como lições permanentes. A primeira foi a lição da parede; a segunda, a do copo d’água; a terceira, a do portão, talvez uma quarta, a da cama. Explico-lhes.

Estudante de Letras, muitas vezes, terminadas as aulas, dirigia-me à sua casa, ali próxima do campus do Benfica, para saber da sua opinião sobre alguma obra, autor, ou mesmo algum aspecto ou problema literário. Certo dia, lá se vão mais de vinte anos, uma questão teórica parecia-me limitar o alcance da Literatura. Ele me recebeu, como de hábito, em seu gabinete, afundando-se logo na cadeira preferida, uma preguiçosa de lona. Lá pelas tantas, disse-lhe que toda obra literária, por ser produto da imaginação, não passava, no fundo, de uma grande mentira. Ele, empertigando-se todo, cravou-me os olhos:

− É, pode ser uma mentira, uma invenção, mas uma fábula de La Fontaine é mais verdadeira que esta parede! – disparou, apontando veemente para a parede ao lado. Parei, espantado. Logo completou:

− É mentira que uma raposa possa falar e pensar, mas o que ela diz, na fábula, sobre as uvas que não pôde alcançar, a verdade humana que aí está, meu velho, vai durar mais que esta parede!

Sem dúvida.

De um golpe, compreendera eu não só o sentido da literatura, mas também a razão da sua permanência para o homem. Era a lição da parede.

Noutra ocasião, pedira-lhe um trabalho inédito para publicar numa revista que eu pensara em lançar junto com outros companheiros. Dias depois, deu-me um conto, pedindo-me a opinião. Senti-me honrado com a solicitação. Depois de lido, fui ao seu gabinete de pró-reitor, ali no prédio do antigo Básico. Lembro-me de que, na época, Gabriel Garcia Márquez encontrava-se no auge da fama. Discutimos o fantástico, algumas metáforas de Cem anos de solidão. Em seguida, voltamos ao conto. O realismo de uma cena impressionara-me muito. Tratava-se de um homem que entrava numa favela e súbito, num estabanado de asas, uma galinha passa-lhe por sobre a cabeça. Parecia cena de um filme. Tudo muito claro, os detalhes, os gestos, o voo raso da ave.

Ele, rápido, arrematou:

− Para mim, a realidade é que é fantástica, assim como este copo d’água! – apontou para um tranquilo copo d’água sobre a mesa, para logo emendar:

− A literatura deve ser clara como esta água – sentenciou −; um claro e necessário enigma, concluiu drummondianamente. (Aliás, gostava de citar um outro verso do autor de A rosa do povo, para definir a poesia: “As águas sujas do Sena escorrendo sabedoria”.) Era a lição do copo d’água. Restava a mim bebê-la.

Como a poesia de um outro grande escritor brasileiro, João Cabral de Melo Neto (que, curiosamente, Moreira não lhe nutria lá grandes admirações), a ficção do contista cearense dá a ver : mostra, revela, destaca, recorta com nitidez a realidade, os objetos, os seres, as coisas. Quer seja a realidade do Nordeste áspero e seco, quer seja a realidade urbana, os ambientes e sobretudo os personagens. Moreira Campos, naquela ocasião, confidenciara-me mais: que só escrevia um conto quando o visualizava por inteiro, inclusive os gestos e rostos dos personagens. Era a confissão de um artista apolíneo, para quem a luminosidade da cena se mostra fundamental.

De fato, impressionante a capacidade descritiva, a plasticidade da sua prosa. Com duas ou três palavras ou frases, consegue pintar um quadro, um personagem ou armar uma cena. Vejam, por exemplo, o início dos contos “O preso” (“Dr. Antero, charuto na boca, em mangas de camisa e suspensórios, derramava-se na espreguiçadeira naquela tarde de domingo, os braços para cima, no alto da calçada. Já a sombra das casas deitava-se larga sobre a praça da estação.”) e “O peregrino” (“Chão rude, áspero, mais de pedregulhos. Um que outro bode ou cabra nas escarpas. O vento e os redemoinhos de folhas secas. Sobre os lajedos, ao meio-dia, modorravam lagartos. Os casebres em distância de léguas.”) Pode-se afirmar que ele escrevia como se filmasse. Adiciona-se a isso o fio narrativo fluindo, qual regato cristalino, em tensão permanente, sobre o plano monocromático dos personagens em ação, para alcançar a essencialidade da linguagem empregada – a prosa límpida e admirável de que nos fala Rachel de Queirós – potencializando, assim, a qualidade literária do texto.

A terceira lição surgiu ao sair da sua casa, numa noite em que fomos, minha mulher e eu, visitar o casal. Ela, a lição, aparece como um complemento opositivo à visualidade extrema da sua prosa. Trata-se do implícito, do sugestivo que o conto e a poesia devem perseguir, assegurou-me ele, agarrando-me pelo braço, depois de abrir o portão em despedida. Era nesses momentos que frequentemente revelava as convicções mais ardentes, como se quisesse que eu não esquecesse suas palavras: iria dormir com elas.

− A arte, a literatura, é a verdade humana subjacente! – disparou.

Acentuava a palavra subjacente, enquanto abria e fechava o portão e a pálpebra direita do olho, dando-me a dica, num gesto que significava parceria, cumplicidade. A arte estaria aí, segundo pude compreender, nesse entreabrir do portão, entre o exterior da rua e o interior da casa e do ser, nessa descida e subida da pálpebra do real, nessa piscadela dirigida à inteligência e à sensibilidade do leitor/espectador.

A última recordação/lição literária me aconteceu meses antes de ele nos deixar. Embora doente, continuava impávido a escrever a sua crônica literária, no jornal O Povo. Empolgara-se com um poema erótico que lera recentemente, fazendo dessa leitura tema de uma das suas crônicas. Tinha eu ido ao seu apartamento, agora na Rua Beni de Carvalho. Encontrava-se lá, na ocasião, a filha, também contista e romancista admirável, Natércia Campos. Comentando o poema, soltou-me esta declaração corajosa e surpreendente (àquela altura) de amor à vida:

− O único compromisso da literatura é com a vida. A força da vida está no sexo. Se você escreve sobre a verdade disso, não se preocupe, meu velho, com a moral burguesa. Não vale nada.

Assim foi, assim é a literatura de Moreira Campos. O sexo ali nunca irrompe de maneira gratuita, mas expressão de vida e força. Força e fraqueza do homem (e da mulher) rompendo regras, normas, fachadas e códigos. Como em “Profanação”, “A gota delirante”, “A prima” ou “Irmã Cibele”, entre outros. Sofria muitas vezes restrições e advertências veladas dos moralistas provincianos, por conta da temática erótica. Não dava a mínima para eles. Importante mesmo era o compromisso com a verdade da vida e da literatura. Jogar luz, em tensão constitutiva, sobre o desejo e a precariedade do ser humano, este bicho que o nosso contista não raro enxergava com certa dose de compaixão e ironia.

Moreira Campos é o tipo do escritor para quem o mundo existe objetivamente. As coisas, os objetos, a paisagem social e natural e os seres se apresentam primeiro na sua fisicalidade imanente, na sua configuração plástica em interação com o meio, para depois adquirirem conotação simbólica ou psicológica. Como podemos verificar, por exemplo, em “Lama e folhas”, “As corujas”, “Os doze parafusos”, “A caixa de fósforo vazia”, “A mosca, a pasta, os sapatos” ou nos “cães que, dizem,veem coisas”.

Não é de estranhar, pois, que me falasse de literatura apontando para as coisas próximas e concretas, ao mesmo tempo que lhes dando significado maior. Só os verdadeiros artistas conseguem isso.

Assim, homenagear, nesta ocasião, Moreira Campos significa para mim recordar o homem e a sua arte entrelaçados, os toques do mestre, a generosidade, a sabedoria e a lucidez que me foram tão próximos e caros. Significa também adquirir a certeza de que a sua literatura permanecerá mais do que essas paredes; por ser reveladora de vida, transparente e necessária como a água; por abrir-nos o portão a uma realidade humana mais profunda e dolorosa talvez; por finalmente mostrar-se tão forte e apelativa quanto a literatura pode ser em relação à vida, impulsionada por Eros (em contrapartida a Tanatos), cercada de mistério e beleza.

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