quarta-feira, 2 de maio de 2012

Moreira Campos por Batista de Lima

(Batista de Lima)

O escritor Nilto Maciel está organizando um site sobre Moreira Campos, com depoimentos de pessoas que conviveram com esse que é considerado o mais famoso contista cearense. Esse trabalho consta de um banco de informações sobre a convivência de seus autores com o nosso contista maior, sem a preocupação com análises literárias. Ele quer apenas dados pessoais da convivência entre os depoentes e o escritor. Esse pedido se torna fácil de ser atendido e ao mesmo tempo rico de pronunciamentos, tendo em vista que José Maria Moreira Campos esteve sempre rodeado de amigos literatos e de alunos universitários.

Minha convivência com Moreira Campos sempre foi marcada pela curiosidade. Afinal, depois que tomei conhecimento de sua permanência em Lavras da Mangabeira durante a infância e a adolescência, comecei a ler seus contos, buscando identificar cenários e mitos daquela cidade que é sede do município onde nasci e me criei. Lavras é cidade antiga, encravada nos limites entre o Sertão Jaguaribano e o Vale do Cariri. Em outros tempos, seus domínios políticos abrangiam os atuais municípios de Várzea Alegre, Aurora, Ipaumirim, Baixio, Umari e Cedro. Sua história política é pontilhada de acontecimentos beligerantes característicos do coronelismo sertanejo.

A vida do contista em Lavras coincidiu com o recrudescimento das disputas políticas e desavenças acontecidas na cidade. Esse era um dos assuntos que conversávamos em alguns dos nossos encontros. Acontece que antes de conhecer o autor, conheci a obra. Lia seus contos como quem lia Lavras. Ao final lia os contos como quem lia Moreira Campos. Aos poucos também fui conhecendo-o pessoalmente em encontros literários que ocorriam na Universidade e na Academia. É tanto que cheguei a ir numa oportunidade à sua antiga residência do Benfica, que foi destruída para ampliação do estacionamento do Shopping Benfica. Estive em sua casa em companhia de Adriano Espínola, sobrinho de sua esposa.

Quando ingressei na Academia Cearense da Língua Portuguesa, Moreira Campos era um dos seus membros mais atuantes, além de ter sido um dos fundadores daquele sodalício. Nas reuniões sempre tinha voz altiva e elegante. Manifestava-se com conhecimento sobre nossa Língua e sobre Literatura Portuguesa, que lecionara por muitos anos no Curso de Letras, da Universidade Federal do Ceará. Foi exatamente naquela universidade em que cursei meu Mestrado em Literatura, e isso tem muito a ver com Moreira Campos, pois no momento de elaborar minha dissertação, escolhi sua obra literária como fonte de minhas pesquisas. Assim comecei uma nova fase de relações pessoais com o contista.

Para elaborar minha dissertação comecei a frequentar sua residência que a esse tempo já era em um apartamento da Rua Beni Carvalho. Havia alguns livros do contista, bem como de críticos festejados que o analisaram, que eu não possuía e precisava arranjar com ele. Logo de início ele começou me emprestando um exemplar. Quando o devolvi, já recebi dois por empréstimo. Assim em pouco tempo conquistei sua total confiança, a ponto de ficar sozinho às vezes mexendo na sua biblioteca. Finalmente terminei meu trabalho de conclusão de curso e foi marcado o dia da defesa na Sala Interarte da UFC. Não convidei ninguém para assistir à defesa, mas ao chegar ao recinto a sala estava lotada.

Entre os presentes estava Moreira Campos com muitos de seus familiares, começando por Dona Zezé sua querida esposa. A princípio isso foi motivo de muita preocupação de minha parte, o que depois se transformou em motivo de descontração por conta de algumas interferências do contista ao discordar de algumas das minhas conclusões. Essas divergências ocorreram a partir do instante em que comecei a caracterizar a vertente do erotismo na sua obra. Foi preciso que eu abrisse exemplares de seus livros, na hora, para justificar minhas colocações.

Essa defesa ocorreu em 1993, depois que passei dois anos estudando sua obra. Dos seus 140 contos, meu trabalho versa sobre 138. Acontece que depois do término da pesquisa até sua morte em 1994, ele ainda escreveu dois contos com os quais não trabalhei. Um deles é “A gota delirante”, em que mais latente está o erotismo. O que chama a atenção na sua obra é a existência de, mais de trezentas vezes, a palavra “dedo”, todas com conotação erótica, o que perfaz em média dois dedos por cada conto.

A convivência com Moreira Campos trouxe-me pois muitos proveitos. Até comportamentos seus me serviram de exemplo. Um deles foi a lhaneza com que recebia e acolhia as gerações novas. Muitas vezes ficávamos conversando, um grupo de estudantes e ele no centro da roda, sobre assuntos variados, naquele bosque do Curso de Letras da UFC. Para lá ele se deslocava quase todos os dias à tarde para conversar com os estudantes, mesmo estando aposentado do seu mister de professor.

Outro comportamento que chamava minha atenção era sua relação com Dona Zezé. Muitas vezes, nos sábados à tarde, quando ia à sua residência, o casal estava em casa, ele bem à vontade e ela toda arrumada e perfumada, numa cadeira de balanço, como quem ia sair para uma festa. Isso acontecia tanto que me levou a perguntar à escritora Natércia Campos, filha do casal, por que aquele comportamento. Ela me explicou que desde que namoravam, antes mesmo do casamento, há mais de 60 anos, Moreira Campos fazia tudo para as cinco da tarde presentear seu amor com uma rosa. Então ela se arrumava toda para a recepção. Esse e outros exemplos de Moreira Campos me cativaram e tornaram inesquecíveis nossos momentos de convivência.
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jbatista@unifor.br
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