segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Água e os Símbolos em Moreira Campos (por Marcos Lima)


O nosso planeta é constituído em sua maior parte de água, um planeta de oceanos. O corpo humano também é constituído em sua maior parte de água. Lugares-comuns. Juntando as sobreditas afirmações, concluímos que a água é essencial para a vida – quando as sondas espaciais visitam outros planetas para analisar as suas condições de vida, procuraram vestígios de água em qualquer um dos seus estados físicos. As possibilidades levantadas até agora para o elemento água envolvem a sua ligação com a geração da vida, mas vejamos mais alguns aspectos sobre a simbologia deste elemento:


Água: símbolo da matéria-prima, o início primordial de todo ser. Símbolo da purificação, renovação corporal, psíquica e espiritual. Simboliza o feminino, a fertilidade, a vida. Dualidade no batismo – morte e vida. Negativamente – Dilúvio – símbolo da força destrutiva. Na Psicanálise – símbolo do feminino e do inconsciente. O nascimento no sonho se expressa em meio às águas.
(ROSA, 2009, p.20)

A partir de uma das definições acima, a da água como elemento que também expressa os meandros da morte e do renascimento, vamos trabalhar com o aparecimento deste elemento na obra do escritor Moreira Campos. Em texto anterior neste blog (Um poema chamado “Lama e Folhas”?), por abordarmos outra temática não nos detivemos sobre este tema, mas ele já está lá: a água como elemento ativo da morte e não da vida.

As águas nas quais o garoto Eduardo de Lama e Folhas encontra o descanso eterno, bem como outro garoto, Netinho, em Dizem que os cães veem coisas, conto do mesmo autor, para citarmos dois exemplos por enquanto. Água e morte. Para o presente estudo, vamos nos ater a um conto do grande escritor Moreira Campos e a sua relação com o elemento água, este conto se chama O banho.

RENASCIMENTO SEM MORTE:
UM NOVO BATISMO

Toda a escrita de Moreira Campos é dotada de uma concentração da linguagem que já foi analisada e assemelha-se aos recursos usados em textos líricos. Mais uma vez, podemos observar um grande número de elementos encadeados em um curto fragmento de uma obra. Se em outros momentos os recursos líricos aglutinados encerram a fórmula da literatura de Moreira, aqui temos recursos altamente simbólicos que compõem o chamado pano de fundo de uma cena. Analisemos o seguinte excerto do conto O banho:

Havia apenas a lua, o silêncio, a brancura longa do muro, os cachorros magros, farejando latas. Ele saltou o muro bem mais adiante, perto do galpão de zinco, no ponto onde já havia alguns tijolos deslocados e onde se deitava a copa larga da velha acácia. Evitava pisar por cima dos túmulos ou das covas rasas. Agachou-se um pouco até alcançar a proteção do túmulo maior e antigo, porque a lua saíra dentre as nuvens e em frente se amontavam os casebres do morro. (...) De dia os tanques tinham muita vida: as mulheres se reuniam em volta deles para a aguação dos canteiros, os ajudantes de pedreiro vinham apanhar água nas latas. Ele se desnudou a um canto. Ao locomover-se, vedava sempre o sexo com as mãos. Era como se estivesse em casa, sem temores. Se por vezes atentava para o voo do bacurau, que se desprendia do beiral da capela para o galho oscilante do cipreste, fazia-o por suspeita de ladrão.
(MOREIRA CAMPOS, 2002, p. 38)

Em um trecho aparentemente simples encontramos pelo menos seis símbolos importantes que em si encerram uma dicotomia simbólica vida/morte que é acentuada implícita e explicitamente, em maior ou menor grau, nesta narrativa: a água (já citada), a lua, a acácia, o cipreste, o muro branco e o sexo vedado.

A água possui um simbolismo de renascimento que será mais bem trabalhado adiante. A lua entre outras coisas é reguladora da vida e intimamente ligada ao mundo da água por agir sobre as marés – sendo em todas as culturas, rico símbolo vital. A acácia e o cipreste, duas árvores presentes no cemitério, também são símbolos interessantes, sendo a primeira considerada um símbolo de imutabilidade pela sua madeira duradoura. A segunda também está ligada a longevidade e os gregos associavam o cipreste a Plutão fazendo referência aos mortos (ROSA, 2009).

Outro elemento aparentemente simples que faz parte da paisagem é o muro branco do cemitério. A cor branca poderia ser meramente tinta de cal, simples, usada para de certa forma limpar o aspecto daquele lugar, um uso que não seria incomum. Mas assim como é comum no Oriente, Moreira Campos costuma associar a morte com o branco e não com o luto negro que o Ocidente normalmente considera. Vale a pena lembrar-se da representação espiritual alva que se posta na beirada da piscina de Dizem que os cães veem coisas.

Interessante também percebermos a passagem do personagem principal do conto pelo cemitério para seu banho e a forma como ele o realiza. Tal como num Éden às avessas, em meio a um jardim de morte e não da vida, ele realiza a sua limpeza e despido de pudor já que seu jardim é outro. O narrador do conto acentua inclusive a vida que existe e povoa aquele lugar durante o dia, mas a noite o cenário muda e apesar desta mudança, o personagem transita tranquilo por este espaço e sozinho executa um momento ritualístico como uma espécie de batismo em meio ao cemitério. Existe uma renovação física e espiritual em meio a todo aquele cenário repleto de signos que trabalham com esta dicotomia. Se existe outro texto em que esta dualidade da água é tão acentuada, seu poder de vida e morte, a forma como os pontos de vista podem convergir ou não para esta interpretação, somente o encontramos no texto da Bíblia Sagrada (FRYE, 2004).

A água nem sempre é elemento da vida e em Moreira Campos certamente não é vista desta forma. Mas mesmo como elemento da morte, ela não é violenta, a morte na água pelo velho Moreira é um abraço direto e rápido, quando os personagens se apercebem, a água já executou a sua função cheia de dualidade: promover a vida, mas também, quando necessário, acolher a morte.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOSI, Alfredo. O conto brasileiro contemporâneo. São Paulo: Cultrix, 2006.
FRYE, Northrop. Código dos Códigos: a Bíblia e a literatura. São Paulo: Boitempo, 2004.
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A quinzena ao caos portátil. Fortaleza: Imprence, 2008.
MOREIRA CAMPOS. Dizem que os cães veem coisas. 4.ed. Fortaleza: Editora UFC, 2002.
ROSA, Maria Cecília Amaral de. Dicionário de Símbolos: o alfabeto da linguagem interior. São Paulo: Escala, 2009.

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