domingo, 11 de novembro de 2012

As Ruínas Circulares da Práxis (por Marcos Lima)


Amou daquela vez como se fosse a última (...)
Amou daquela vez como se fosse o último (...)
Amou daquela vez como se fosse máquina (...)
Construção, Chico Buarque

O pai da poesia-práxis, o poeta Mário Chamie, disse certa vez que o perfeito exemplo de sua teoria era a letra da canção Construção de Chico Buarque. A letra conserva toda a estrutura tida como tradicional do uso do verso e da palavra, mas também coloca a paronomásia no centro de sua experimentação. Comum seria uma canção, lírica por excelência, que tivesse tal uso. Já vimos também em textos anteriores deste blog que por vezes também lírico é o discurso dos narradores criados por Moreira Campos. E teremos mais um exemplo agora.


O conto As corujas, tido pelo ex-professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e crítico literário Sânzio de Azevedo como umas das mais perfeitas obras do contista, encerra muito desta práxis colocada por Chamie e que não nos lembra de Chico Buarque somente, como veremos ao final deste texto – peço ao leitor que desde já guarde este dado importante que será retomado.

O conto chega a ser classificado pelo emérito professor como sem enredo porque de fato não há uma história ou um conflito ali que tenha se desenvolvido, não há nada que possa ser contado ali, criando um verdadeiro paradoxo. Mesmo a fala do personagem tampouco pode ser fixada até mesmo cronologicamente, não se sabe ali se a fala aparece como lembrança do momento em que ela se processou ou se aquele instante é o real momento da fala. O conto em Moreira Campos está, como diria Alfredo Bosi, para o quase-poema do imaginário às soltas (2006).

Mas não devemos entender a fala de Sânzio como afirmação categórica de que temos um exercício mais de forma do que conteúdo em si. Se aparentemente falta enredo, não é pela falta de conteúdo. O conteúdo em Moreira Campos faz parte de algo praticado pelos narradores do autor: a descrição. Porém esta em Moreira Campos não o aproxima do descritivismo de espaços como o de um Eça de Queirós, por exemplo. A descrição em Moreira Campos não serve a história, mas antes é a própria história apresentada nas entrelinhas para que o leitor ideal, aproveitando aqui conceito de Umberto Eco (1994), seja capaz de captá-la em seus mais importantes detalhes.

A descrição de fatos ou mesmo personagens e a repetição destas descrições a guisa de mote, como em Construção, é o cerne da narrativa. A descrição das vestes do homem no necrotério, o momento da pronúncia da sua fala enxotando as corujas e por fim o ato das corujas atacando os defuntos são trechos repetidos ao longo do texto quase da mesma forma, mas estas alterações sutis que vão provocando a progressão discursiva do conto:

É preciso cobrir os mortos, proteger-lhes as cabeças. As corujas descem pela claraboia. Tem voo brando, impressentido, num cair de asas leves, como num sopro de morte. De repente dá-se conta de sua presença, das asas de pluma, sem ruído. Alteiam-se e pousam sobre o leito dos mortos, arranhando-lhes os olhos parados, que fulgem na noite, divididos ao meio.
(MOREIRA CAMPOS, 2002, p. 41)

Elas desciam pela claraboia, mesmo com a luz da lâmpada. Era preciso manter as velas acesas nos castiçais. Só assim as desgraçadas não vinham: temiam queimar as asas nas chamas. Ficavam rasgando mortalha no alto das velhas árvores ou na torre da capela. Sem a presença das velas, elas surgem sempre, impressentidas, como num sopro de morte: alteiam-se leves, pousam no peito dos mortos e com o bico arranham-lhes os olhos, que fulgem parados e infesos na noite.
(Id., Ibid. p. 42)

Um primor de progressão discursiva como observamos.

P.S.: O leitor que chega ao final deste texto pode se perguntar: Mas e o título? As ruínas circulares, por quê? Porque a forma como Moreira desenvolve este enredo é da grandeza e semelhança ao que Jorge Luis Borges faz em seu conto de Ficciones. Quem quiser conferir o porquê da comparação com o contista argentino, pode conferir o texto aqui. Sim, eu acabo de fazer-lhe um desafio e incitá-lo a ler Borges também...

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOSI, Alfredo. O conto brasileiro contemporâneo. São Paulo: Cultrix, 2006.
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. 2.ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A quinzena ao caos portátil. Fortaleza: Imprence, 2008.
MOREIRA CAMPOS. Dizem que os cães veem coisas. 4.ed. Fortaleza: Editora UFC, 2002.

2 comentários:

  1. Caro Marcos,

    Você tem feito um ótimo trabalho! Parabéns! Sugiro apenas que, para compactar o blog, utilize, caso queira, a partir da segundo bloco de cada texto, o recurso !JUMP BREAK", que dá aquele "LEIA MAIS.." no texto final

    Abraços!

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    Respostas
    1. Olá, Webston.

      Agradeço pelo comentário e pela dica!

      Abraços!

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