quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A Urgência do Prazer (por Marcos Lima)



Pensemos numa metáfora. A obra de cada escritor como sendo uma cidade. O quanto ele percorre cada tema determina o quanto aquele tema é central ou está nas periferias daquela cidade. Pensando na obra de Moreira Campos como uma cidade, vemos que seus narradores e personagens não tem receio ou pudor de tratarem temas ligados a sua sexualidade, eles estão na capital de sua obra. O sexo, o prazer, suas delícias e também o seu caráter escatológico são explorados sem pudores ou receios.


Teria a literatura de Moreira Campos traços de erotismo ou mesmo de pornografia? Existe de fato um problema na classificação daquilo que seria uma coisa ou outra e os limites de tais conceitos. Apropriar-me-ei aqui da distinção feita por José Paulo Paes para estes termos. Segundo o poeta, tradutor e crítico, a tarefa do pornográfico é mostrar com detalhes o ato sexual e provocar a excitação. O erotismo é mais sutil porque não quer recuperar o ato, mas sim perpetuar a sensação de prazer sentida pinçando os momentos que levaram até aquele êxtase e tornando-se possível reter o essencial daquela sensação prazerosa sentida (1990). A arte assim estaria a serviço de perpetuar o que no real é efêmero por essência e sendo assim podemos classificar de eróticos muitos contos do autor cearense.

Na esteira de trabalhar este erotismo, nenhuma punção é ignorada como vemos em Irmã Cibele e a menina em que temos dois temas importantes sendo representados: a homossexualidade e a pedofilia. Tal associação do sexo com a religiosidade não aparece somente de forma clara e demarcada como no sobredito texto, mas também de maneira implícita como em A caixa de fósforos vazia em que a tia explora sexualmente o sobrinho usando como desculpa protegê-lo de prostitutas e atribuindo este “cuidado” a responsabilidade com a mãe do garoto olhando pelos dois lá do céu. Só que esta associação nestes textos não carrega o peso e a culpa de convenções sociais, ela acontece com naturalidade assim como a vida e a morte também se apresentam como consequências naturais de estar vivo.

Mas a relação com a religiosidade de forma natural está longe de ser o único ponto que nos chama atenção na exploração deste erotismo. Parece existir uma urgência do prazer. Como se o ato sexual precisasse ser consumado o mais rápido possível e se afigurasse como uma necessidade vital quando surge o desejo. A vontade é grande, a punção aumenta exponencialmente e desemboca na concretização do ato ou, mesmo que ele não se realize, existe um ápice do desejo que é consumado de alguma forma – nem que seja com a diminuição da tensão sexual porque não foi atingida.

Vemos momentos como este em Vigília e também em A gota delirante. Neste temos a realização do ato, um ato desesperado do protagonista com a mulher do primo e finalmente aquilo que era apenas uma gota delirante que escapava, vira com urgência e força um orgasmo pleno e concretizado na posse que acontece como ele sonhara – um jogo de sedução que é construído e a sensação que fica retida é justamente o sentimento de posse que aumenta até de fato se transmutar em ato sexual. Naquele temos um exemplo de gozo errado, uma ejaculação às avessas toma conta do marido que, impedido de concretizar seu desejo por ofender sua mulher porque fora tomado pelo ciúme, vaga pelos corredores do navio e o que era desejo vira náusea e ele vomita enjoado pela maresia – sexualidade que se transforma em asco, resultado da impossibilidade de concluir o seu desejo combinada com a contrariedade de seus sentimentos.

Impressiona nestas obras não o uso do erotismo em si, desde os gregos, recuperando novamente o estudo de Paes, o tema é expediente literário, mas sim a forma como estes temas são narrados com naturalidade e aparecem não para chocar a expectativa do leitor, mas para conscientizá-lo do quanto de real estas ações podem ser e em geral o são. Tudo com um estilo inconfundível que fixa na narrativa os momentos que devem ser recuperados tendo como escopo a perpetuação daqueles momentos de prazer – feliz ou infelizmente dependendo do ponto de vista de cada um dos personagens, mas feliz para os leitores que podem encontrar neste autor uma literatura erótica de qualidade.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOSI, Alfredo. O conto brasileiro contemporâneo. São Paulo: Cultrix, 2006.
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A quinzena ao caos portátil. Fortaleza: Imprence, 2008.
MOREIRA CAMPOS. Dizem que os cães veem coisas. 4.ed. Fortaleza: Editora UFC, 2002.
PAES, José Paulo. Erotismo e poesia: dos gregos aos surrealistas. In: Poesia erótica em tradução. seleção e tradução de José Paulo Paes. São Paulo : Companhia das Letras, 1990.

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