sábado, 27 de abril de 2013

VIDAS MARGINAIS



(Conto de Moreira Campos)

 

O vento da manhã soprava frio. Mês das grandes marés. O mar quebrava violento de encontro às pedras. Salpicos d’água caíam na ponte. Torquezinha ajeitou na cabeça o xale* surrado. Arrimou-se ao parapeito, à entrada do viaduto, uma das mãos apoiada ao joelho. Soprou, cansada.  E ali ficou-se curva: um caquinho de gente dentro do vestido preto, do xale inútil, rosto engelhado de jenipapo. Os olhos miúdos apertaram-se mais à procura de alguém.

Troles passavam cheios de carga, impelidos à força de músculos. Alguns estivadores esperavam a hora de render o serviço.

O homem sentiu no braço a mão mirrada de Torquezinha. A voz lhe saiu num sussurro.

O sr. Viu o Roque?

O outro parou. Relanceou a vista em torno, procurando o companheiro.

Ah! Lá vem ele.

Roque avistara a velha. Andara aborrecido naqueles últimos dias, meio emburrado. Veio correndo, envolveu Torquezinha num abraço amplo, que a afogava. Ela ficou entre os seus braços como uma coisinha de nada. O estivador estava satisfeito, falava alto, expansivo.

Que é que hai, Torquezinha, minha tia?

A velha riu. Entregou-lhe um bilhete, escrito a lápis, num pedaço de papel almaço amarrotado. Alguém leu para Roque a mensagem de Lindalva.

Roque

                        bom dia

Eu não seio porque você não aparece você sabe que eu não gosto de soldado quanto mais de um tipo inchirido daqueles porque você ficou assim Roque? Te espero oje de noite como sem falta. Sem mais da tua... Lindalva

Agora que ela o chamava, o seu primeiro impulso foi o de descompor a mulher: dizer que ela não valia nada, era um traste, que nunca mais a procuraria. Mas o certo é que todo ele se reconciliava.

Eu não sei, Torquezinha. Pode ser que eu apareça... Vou vê.

Procurou alguns níqueis. Deu-lhe um cruzeiro. E a velha arrastou-se.

Roque entrava em serviço. Abria-se com os amigos, pilheriava e pagava-lhes cachaça. O trabalho corria leve. Lembrava-se do corpo moço de Lindalva. Tinha vinte e dois anos apenas. Queria tê-la nos braços, de encontro ao peito, numa noite que compensasse os dias de ausência. Era rameira, mulher da vida. Diziam que fora criada por uma velha arranjada. Estudara em escola de gente branca. Ainda pediria a ela que lhe contasse a história da sua vida.

Havia* um mês apenas a conhecia. Gostava de Lindalva. Era fraqueza um homem de vergonha se apaixonar por uma perdida. Só servia de mangoça para os outros. Mas tudo isso estava acima de suas forças. Queria-a como se quer a moça zelada, que tem pai e mãe. Desejava-a fortemente. Tinha intenção de tirá-la daquele meio, dar-lhe casa e vida decente. Que importavam os comentários, se ele só pensava em Lindalva, sentindo dia a dia crescer o ciúme? Era mulher da vida, recebia os homens que quisesse. Ele nem ao menos a sustentava. Doía-lhe aceitar a realidade. Mas havia de arrancá-la àquela sujeira. Roque recordava o sargento de polícia, que, por umas duas vezes, avistara na casa da amante. O sujeito andava de asa caída para o lado dela. Um cabrocha metido a besta. Se o encontro se repetisse, um deles sobraria.

O trabalho corria leve. Roque revia o corpo moço e claro de Lindalva.

                                                           ***

Céu sem estrelas. Rua deserta. Lindalva tinha o pressentimento de que o seu homem viria. Não havia navios no porto e o serviço terminara cedo.

Por que tardava tanto? As horas se arrastavam. Impaciência. As outras duas companheiras aguardavam na sala pobre da casa, à luz mortiça da lâmpada, calmas, sem preocupações, numa conversa feita de longos silêncios, algum possível freguês, naquela noite escassa de homens. Lindalva quase as invejava. Antes estivesse ali também à espera de um estranho, do primeiro sujeito que passasse e a quisesse possuir. Então, marchariam os dois para o quarto. Ela fingiria amor, venderia o seu corpo e estaria garantido o aluguel da cama. Ao menos, a velha Dondoca não teria de que se queixar. Reclamações. Ameaças. A velha tinha os seus motivos. Era a dona da casa e vivia da renda das mulheres. Mas o certo é que detestava aquela bruxa safada. Voz autoritária, antipática.

– Rapariga pobre não pode ter amante. Isso é luxo. É mulher de todo homem: o primeiro que apareça.

Mas Dondoca com aquela idade, quase sessenta anos, sustentava xodó: um rapazinho de dezoito. O menino nem tinha emprego, vivia do dinheiro que ela lhe dava. Explorava a velha nojenta.

Por que caíra na tolice de amar, ela, Lindalva, que devia uma grande experiência aos homens? Melhor seria que as coisas voltassem ao sossego estúpido do passado, em que se entregava a todos, sem preferências. Mas Roque impusera-se. Não sabia afastá-lo do seu caminho.

Na noite passada, a excitação da rapariga aumentava. Metia-se por dentro de casa, parava à porta, ia à janela. E o silêncio desesperador da rua respondia-lhe à súplica.

Passos na rua. O coração lhe pulsou forte. Um indivíduo qualquer. O estranho passou na calçada, com espiadelas para dentro de casa. Disse-lhe uma pilhéria.

– Quer fazer um amorzinho, minha filha?

Fez que não o ouvia. O homem foi até a esquina. Voltou sobre os passos, entrou na sala e aboletou-se numa cadeira. Conversa mole, comprida. Seus olhos queriam eleger Lindalva. Ela disfarçou. Fugiu-lhe à concupiscência. Deixou-o com as duas companheiras e trancou-se no quarto.

Daí a pouco, os gemidos mentirosos de Mundinha enganavam o apetite sexual do desconhecido.

Roque chegou às nove horas. Pusera a melhor roupa. Um cheiro ativo de brilhantina e de perfume barato.

E por todo aquele resto de noite, a tristeza fugiu dentre as quatro paredes de tabique do quarto anônimo de Lindalva.

                                                           ***

Alvacenta. Filha de pai branco com uma criada. Passara alguns anos em companhia de uma velha viúva. Nesse tempo, já se punha mocinha. A velha possuía a casa onde morava e um pequeno montepio. Tinha um filho único, casado. Vivia lá para as suas bandas, visitando a mãe quando podia, de longe em longe. Lindalva valeu-lhe como uma ajuda, nos últimos anos de velhice. D. Ermelinda mandou ensinar-lhe as primeiras letras. Queria orientá-la na vida. Mas certa manhã, ao entrarem no quarto, encontraram D. Ermelinda inerte na cama. Morrera sem vexames, sem agonias, na quietude profunda da noite.

O filho meteu-se em casa, com a mulher e os meninos. Apossou-se de tudo. Com o tempo, a existência em comum com a moça tornou-se um problema. Ela sobrava entre aquela gente. A mulher não a suportava. “Que procurasse um canto qualquer na vida.”

Foi ainda o filho da defunta quem lhe arranjou um emprego numa pequena loja de variedades. Ficou servindo no balcão. Passou a viver em casa de uma colega de trabalho. Completava os dezenove anos, tinha a seu favor a graça da mocidade.

Notara que o dono do estabelecimento a olhava com insistência. Tentou disfarçar, fazer-se de desentendida, que o sujeito era casado e tinha uma escadinha de filhos. Mas o comerciante teimava. O interesse já dera até na vista dos colegas. Sem que ela o pedisse, aumentou-lhe o ordenado. E certa vez, nos fundos discretos da loja, segurou-a pelos braços, apalpou-a. ela não resistiu. Cabeça baixa, indefesa, quase aflita. Aquelas mãos estranhas lhe percorriam o corpo em carícias lentas. Não via na sua frente propriamente um homem: avultava apenas a figura do patrão.

Desse trecho do passado, ficou-lhe viva na memória aquela tarde de sábado em que o lojista a pôs dentro de um automóvel. Rumaram os dois para um fim de bairro. Pararam à frente de uma casinha escondida entre árvores. Um recanto afastado. No momento, quis arrepender-se, repelir o homem. Mas as mãos do patrão tornaram-se macias.

Ele lhe falava ao ouvido. As resistências de Lindalva foram-se amolecendo. E daí a pouco já não era ninguém: uma coisa sem vontade, ao sabor dos desejos.

Os encontros se repetiram. O filho se anunciou. Tentou evitá-lo. Inútil. A barriga crescia. Na loja, olhos curiosos detinham-se no seu ventre. Risos disfarçados. Indiretas.

Enjoos. A barriga avolumava-se. Impossível esconder a criança. Deixou o emprego. O comerciante ainda lhe mandou algum dinheiro. Depois desinteressou-se.

E Lindalva seguiu ao léu, palmilhando os duros e humilhantes caminhos da vida.

Poderia alugar-se numa casa de família. Mas ninguém a queria, com aquele bucho por acolá, em véspera de ter menino.

Maternidade. Por felicidade, perdeu o filho. Deixou a cama sem pingo de sangue, lábios descorados.

Foi assim de queda em queda, até chegar ao meretrício pobre da rua da escadinha. Uma casa modesta. Chão de tijolo. Duas companheiras: a Mundinha e outra. A dona da pensão, a velha Dondoca, rameira antiga e que ainda sustentava xodó. Torquezinha, uma sombra apenas. Fazia recados e comia sobejos. Mas tivera também a sua época. Amara a muitos homens. Às vezes, de noite, na calma da cozinha, ela recordava esses tempos, com a voz apagada, que ia por um fio. E Lindalva a escutava. Queria bem àquela sobra de gente.

Casa de rameiras proletárias. A lâmpada de luz amarelaça dento de um abajur barato de papel celofane. Mesinha de centro de pernas compridas: um jarro com flores de papel, cagadas de mosca. Na porta do quarto da frente – o quarto de Dondoca – uma velha cortina empoeirada. Lá dentro, divisões de tabiques. O detalhe mais cuidado: a cama das mulheres, de lençóis limpos, alvinhos, bem engomados: uma sugestão ao conforto do sexo.

                                                           ***

 

A voz de Lindalva enchia a manhã clara de sol:

Soltei o meu primeiro pombo-correio,

Com uma carta para a mulher que me abandonou...”

Ora, se estava alegre! Roque não lhe faltaria mais. Mandava-lhe dinheiro. Graças a Deus, não precisava de outros homens. A velha Dondoca não tinha o que reclamar. Andava em dia com o aluguel do quarto. E mais: ela e Roque iam viver juntos, numa casa só para os dois. Torquezinha os acompanharia.

A manhã era bela. O sol brilhava no alto. Lindalva amava.

Havia* três dias que o estivador não aparecia. Também havia muitos vapores no porto e o serviço dobrara: entrava pela noite adentro.

                                                           ***

O apito do navio cortou a calma da noite. Apito longo, prolongado. Pulsou forte o coração das mulheres pobres do Mucuripe, da Volta da Jurema, do Alto Alegre, da Praia do Pirambu. Tinham maridos e filhos na estiva, trabalhando no mar, no fundo das alvarengas, nos porões dos cargueiros.

Repetia-se o chamado triste.

Lindalva ouvia Torquezinha, nos fundos da casa. Pararam a conversa e entreolharam-se assustadas. Adivinhavam desgraça. A rapariga não esperou mais: meteu os chinelos e rumou para a ponte.

No viaduto, os homens trabalhavam em silêncio, a angústia no peito. Partira uma lancha e já vinha de volta. A luzinha da embarcação subia e desaparecia na escuridão do mar, ao jogo das ondas.

O guindaste de bordo suspendia uma lingada de oito caixas. A carga oscilava no ar, à entrada do porão. As engrenagens gemiam. Atritos de ferro. Cabos retesados. O grito ficou suspenso na garganta dos homens: o cabo partira-se. Roque estava à boca da escotilha. Tentou fugir. Tarde demais. Uma das caixas o apanhou em cheio e o atirou ao fundo do porão. Um molambo de gente, a cabeça em pedaços, miolos espumantes.

Não tinha família. Velaram-lhe o corpo no Sindicato dos Estivadores. No outro dia, a vala comum.

                                                           ***

 

Noite. Lindalva trancou-se no quarto. Atirou-se à cama e mergulhou a cabeça no travesseiro, sufocando os soluços.

Alguém lhe batia à porta. O homem falava com dificuldade, entorpecido pelo álcool:

Abra aqui, minha filha.

As pancadas se repetiam. Dos fundos da casa, a voz antipática da velha Dondoca:

Lindalva, tão batendo.

Fez que não ouvia. O bêbado insistia. A rapariga levantou-se e abriu a porta. O sujeito avançou com passos incertos. Quis abraçá-la. Fedia a suor e vinha dele um bafo azedo de cachaça. Lindalva sentiu o sangue na cabeça. A raiva turvou-lhe os sentidos.

Saia daqui, seu cachorro!

E com as duas mãos o empurrou com violência de encontro à parede do corredor. Deu a volta à chave. O sujeito equilibrou-se, largou um palavrão imundo e teimou em voltar. A velha Dondoca acalmou-o temendo briga. Estava bêbado demais para reagir. Saiu para a rua, pernas vacilantes.

Agora a dona da pensão recriminava Lindalva, repisada, agressiva:

O que eu quero é mais respeito aqui em casa. Mais respeito. Não é assim como a gente pensa, não. Quem não tiver gostando, que arrume a trouxa. É. Que arrume a trouxa.

De bruços na ponta da cama, Lindalva tinha os olhos presos no chão úmido de tijolo. Lágrimas ardentes queimavam-lhe as faces. No quarto vizinho, Mundinha amava.

Depois silêncio. Rumor d’água em bacia. A casa impregnou-se de um cheiro forte de permanganato.

Lá fora, rua deserta. Iluminação escassa. A noite avançava.

 

(Obra completa: Contos, Editora Maltese, 1996)

* Estão grafados “chale” duas vezes –, p. 144, e “há”, págs. 146 e 150.

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